Jul 1 2011

A nova divisão entre política e religião em Angola do pós-guerra

Ruy Llera Blanes do Departamento de Antropologia da LSE e do  Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa analisa  a evolução da relação entre Igreja e Estado em Angola do pós-guerra.

Em Janeiro 2011, comecei um projecto de pesquisa sobre a religião em Angola, intitulado ‘Política da esperança’: Igrejas e formação da sociedade em Angola do pós-guerra, coordenada pelo meu colega e amigo Ramon Sarró (ICS, Lisboa). O ponto de partida do projecto foi de reconhecer que a religião (especialemente a cristã) ocupa um papel central na sociedade angolana, o que era inimaginável há somente alguns anos atrás antes do fim da guerra em 2002.

Simão Toko in 1962, before leaving for an exile imposed by the Portuguese colonial authorities

Em Angola a religião ocupa um espaço cada vez mais importante e Luanda faz parte das cidades africanas onde existe o maior número de igrejas. Mega catedrais, ‘serviços públicos’ peregrinações , cobertura da mídia, pregação de rua – todos são símbolos da ‘proliferação religiosa’ que existe na sociedade contemporânea angolana.

Incluí neste projecto a minha pesquisa antropológica anterior  sobre a ‘Igreja Tocoísta’. A Igreja Tocoísta’ é um movimento cristão profético que começou nos anos 50. A igreja foi fundada por Simão Gonçalves Toko (1918-1984) ex-estudante da  missão baptista após um evento carismático em Leopoldville (hoje Kinshasa) em 1949.

O caso Tocoísta é um dos exemplos da constante transformação entre religião e política em Angola do pós-guerra. Nos tempos coloniais, o movimento foi alvo de uma repressão severa por parte das autoridades portuguesas, perseguido por ser supostamente um ‘movimento terrorista’.

Toko e muitos dos seus adeptos  foram presos, torturados e deportados pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Estratégia que não conseguiu impedir o desenvolvimento do movimento religioso mas que alimentou a memoria e ideologia do martírio da igreja.

Depois da independência angolana em 1975, a situação da igreja não melhorou mas sofreu nas mãos do governo do MPLA, sob a liderança do presidente angolano Agostinho Neto  – inspirado pelas ideias Marxistas-Leninistas anti-religiosas e também suspeitoso da liderança de Toko.

A persecução continuou mesmo após a morte do profeta em 1984, momento em que a luta pela liderança resultou num conflito interno na igreja, dando daí nascença a diferentes facções na igreja. Em 1992, quando o governo angolano adoptou uma atitude mais tolerante com relação aos assuntos religiosos, foram reconhecidas pelo menos três  diferentes ‘Igrejas Tocoístas’.

Bishop Afonso Nunes preaching in Luanda, April 2011. Photo: Ruy Blanes

A situação  foi parcialmente resolvida em 2000, quando um homem chamado Afonso Nunes, afirmando ter sido ‘incorporado’ pelo espirito de Simão Toko, assumiu a chefia de uma das divisões mais importantes e dirigiu um movimento de reunião, expansão e impacto público. O seu sucesso foi parcial mas notável.

Com a proclamação de uma ‘nova era’ na igreja atraindo uma geração mais nova, Nunes transformou o Tocoísmo. De igreja clandestina e complacente passou a ser um movimento religioso público vibrante, que opera numa base transnacional, sendo progressivamente identificado como a Igreja cristã angolana.

Tokoist believer praying at the door of Tokoist temple in Luanda, October 2008. Photo: Ruy Blanes

Nunes que pode ser visto, ouvido ou lido é hoje uma figura pública, que elogia a memoria do ex-presidente Agostinho Neto (Jornal de Angola, 19 de Septembro 2010), suporta o governo do MPLA (Jornal de Angola, 7 de Fevereiro  2011) e está do  lado das suas políticas sociais (Angola Press, 13 de Março 2011).

Embora esta mudança de posição possa parecer surpreendente é o resultado da situação social e política em Angola do pós-guerra, onde dominam ideias e debates sobre a reconstrução, o progresso e a esperança, ultrapassando os limites das esferas religiosa e política.

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2 Responses to A nova divisão entre política e religião em Angola do pós-guerra

  1. Pingback: Political and religious lines redrawn in post-war Angola / A nova divisão entre política e religião em Angola do pós-guerra « Bradt Guide to Angola : Update Website

  2. Sw says:

    Enriqueceu o meu conhecimento. Obrigada.

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