A participação cidadã e a ação coletiva através do uso de meios de comunicação não é um fenômeno novo, mas é mais atual do que nunca na esfera pública global e hiperconectada. Neste post,  Leonardo Custódio discute sua pesquisa sobre a rica atividade produzida por ativistas de mídia com base nas favelas. Ele mostra como, através de mídias comunitárias, coletivos e redes de apoio mútuo e ação conjunta, os moradores das favelas têm sido capazes de assumir o controle dos canais e plataformas de comunicação para fazer ouvir suas próprias vozes e demandas.

Um dos mais importantes fenômenos contemporâneos de cidadania nas favelas do Rio de Janeiro  é o midiativismo. Mas, como eu argumento abaixo, estas ações são tão pertencentes ao contexto que talvez seja melhor se referir a elas como “midiativismo de favela.”

Como um conceito, midiativismo não é novo. Há décadas midiativismo (em inglês media activism) tem sido relacionado aos usos de novas e velhas mídias contra a dominação das mídias corporativas (Drew, 1995; Opel, 2004). Mais recentemente midiativismo tem se referido à instrumentalização da Internet em lutas políticas (Meikle, 2002). A Primavera Árabe, o Movimento de Wall Street, e os Protestos de Junho em 2013 no Brasil [1] são exemplos recentes de articulação e mobilização de movimentos sociais através de mídias online.

Midiativismo de favela também se constitui de usos de mídias novas e tradicionais para a democratização da comunicação e para contestações políticas. No entanto, estas ações são parte de estratégias complexas usadas contra problemas do cotidiano. Nas favelas, midiativistas desafiam representações midiáticas negativas, denunciam violações dos direitos humanos (e.x.: violência policial, remoções) e mobilizam outros moradores para agir (ver Souza & Zanetti, 2013).

Midiativismo de favela é um desenvolvimento recente das tradições latino-americanas de comunicação para transformação social (Gumucio-Dagron & Tufte, 2006) e mídia participativa (Peruzzo, 1998). Ativistas usam velhas mídias (e.x.: rádio, jornal) e novas mídias (e.x.: Internet, aplicativos de celular) combinadas com técnicas artísticas, pedagógicas e jornalísticas para promover o pensamento crítico e gerar mobilização política nas favelas. Deste modo, normalmente as ações visíveis online são pontas de um complexo iceberg de relações interpessoais e de criatividade coletiva. (Custódio, 2013)

Durante meus quatro anos de trabalho de campo crítico-etnográfico (2011-2014), eu conheci formas diferentes de práticas midiativistas de favelas. Alguns tipos identificados ocorrem em: (a) mídia comunitária, (b) coletivos, e (c) articulações entre favelas em torno de problemas específicos.

Mídias comunitárias são canais midiáticos tradicionais de base. Um exemplo é o jornal O Cidadão no Conjunto de Favelas da Maré. Criado originalmente como um projeto por uma organização não-governamental, O Cidadão foca sua cobertura na política e cultura da Maré. Hoje, a equipe do jornal – formada por moradores voluntários de favelas – é bem independente da ONG. Desde 2012, O Cidadão tem organizado debates e cursos de comunicação comunitária tanto para compartilhar conhecimento quanto para mobilizar mais voluntários para o jornal.

 Pôster circulado online anunciando o primeiro curso de comunicação comunitária do jornal O Cidadão em 2012.

Pôster circulado online anunciando o primeiro curso de comunicação comunitária do jornal O Cidadão em 2012.

Coletivos geralmente são grupos pequenos de ativistas formados por afinidade pessoal e por interesses sociopolíticos. Os coletivos geralmente combinam interações online com ações realizadas dentro das favelas. Por exemplo, o Favela em Foco é um coletivo de fotógrafos que usa redes sociais online e intervenções (e.x.: exibição de fotos e filmes) para documentar, publicar e mobilizar cultura e política nas favelas. Ocupa Alemão é um coletivo de jovens que usam redes sociais avidamente para articular debates, manifestações e eventos culturais nas favelas do Complexo do Alemão. Já o Cafuné na Laje é uma produtora independente de vídeos que usa estratégias crítico-pedagógicas para produzir vídeos participativos com crianças moradoras de favelas.

Plenária popular organizada por jovens do Complexo do Alemão para debater demandas locais em Março de 2014. A plenária gerou vários debates online e um manifesto. Foto: Ocupa Alemão.

Plenária popular organizada por jovens do Complexo do Alemão para debater demandas locais em Março de 2014. A plenária gerou vários debates online e um manifesto. Foto: Ocupa Alemão.

Outro tipo de midiativismo de favela ocorre nas redes de apoio mútuo e ações em conjunto entre ativistas de favelas diferentes. Midiativistas de favela circulam e participam de debates, intervenções culturais e manifestações em outras localidades além daquelas onde moram. Os “compartilhamentos”, as “curtidas” e a divulgação online de eventos políticos também contribuem para reforçar laços de cooperação. As vezes essas cooperações entre favelas acontecem em torno de problemas específicos. Depois da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, midiativistas de favelas diferentes têm produzido vídeos, álbuns fotográficos e textos para blogs para denunciar as arbitraridades de remoções em diversas favelas, como a Vila Autódromo (localizada na área onde o Parque Olímpico está sendo construído). No início de 2014, um grupo de moradores criou a página Maré Vive para ser um canal de contra-informação durante a ocupação militar do Complexo da Maré. Na página, moradores em anonimato têm denunciado abusos de autoridade e violações dos direitos humanos. As atualizações são compartilhadas entre mareenses assim como entre midiativistas e moradores de outras favelas.

Fotografia artística e humanista transformada em imagem que compõe uma postagem de blog sobre as remoções na Vila Autódromo. Foto: Favela em Foco/Léo Lima.

Fotografia artística e humanista transformada em imagem que compõe uma postagem de blog sobre as remoções na Vila Autódromo. Foto: Favela em Foco/Léo Lima.

A importância destes e de outros tipos de midiativismo de favela é que moradores têm cada vez mais dominado canais e plataformas de comunicação para fazer ouvir suas próprias vozes e demandas. Moradores de favelas são geralmente tratados como populações vulneráveis que precisam de ajuda ou como ameaças perigosas que precisam ser controladas. Nesse contexto, muitos dos aspectos políticos do cotidiano das favelas são mediados por ONGs, acadêmicos, polícia, entre outros. Neste contexto, midiativismo de favela é uma importante reação de baixo para cima  contra a vitimização e criminalização dos territórios populares. Estes midiativistas encarnam, mobilizam, articulam e publicam cidadania dentro, fora e principalmente entre favelas. E o dado mais importante: deles para eles mesmos.

[1] Uma base de dados detalhada sobre midiativismo no Brasil pode ser encontrada no site www.rebaixada.org.

Referências
Custódio, L. (2013) Offline dimensions of online favela youth reactions to human rights violations before the 2016 Olympics in Rio de Janeiro. In N. P. Wood (Ed.) Brazil in twenty-first century popular media: culture, politics, and nationalism on the world stage (139 – 156). Lanham: Lexington Books.
Drew, J. (1995) Media Activism and Radical Democracy. In J. Brook & I. A. Boal (Eds.), Resisting the virtual life: the culture and politics of information (pp. 71 – 83). San Francisco: City Lights Books.
Gumucio-Dagron, A. & Tufte, T. (Eds.) (2006). Communication for social change anthology: Historical and contemporary readings.South Orange: Communication for Social Change Consortium.
Meikle, G. (2002) Future Active: Media Activism and the Internet. London: Routledge.
Opel, A. (2004) Micro radio and the FCC: Media activism and the struggle over broadcast policy. Westpost: Praeger Publications.
Peruzzo, C. M. K. (1998) Comunicacão nos movimentos populares: A participacão na construcão da cidadania. Petrópolis: Editora Vozes.
Souza, P.L.A. & Zanetti, J. P. (2013) Comunicação e juventudes em movimento: novas tecnologías e desigualdades. Rio de Janeiro: IBASE.

Sobre o Autor
Leonardo Custódio é doutorando na Universidade de Tampere, Finlândia. Sua pesquisa (2009-2015) investiga as características, motivações e objetivos de midiativismo de favela no Rio de Janeiro. Contato: leonardo.custodio@uta.fi


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