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Blog editor

May 28th, 2015

As mulheres de Itinga: Bolsa Família e consciência política

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As mulheres de Itinga: Bolsa Família e consciência política

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O Programa Bolsa Família conseguiu retirar muitas pessoas da pobreza na última década. Neste post, Alessandro Pinzani contribui para o debate ao propor que, apesar dos beneficiários do Bolsa Família terem oportunidades de desenvolvimento pessoal, há muito ainda a ser feito para empoderá-los como cidadãos.

Existem muitos estudos que analisam o impacto econômico do programa Bolsa Família (PBF), avaliando-o com base na sua habilidade de ajudar os pobres a quebrar o círculo vicioso da pobreza e alcançar alguma estabilidade econômica. Eu e minha colega Walquíria Leão Rego decidimos estudar seus efeitos sobre a subjetividade das beneficiárias do ponto de vista de sua autonomia individual e de sua consciência política. Depois de entrevistar cerca de 200 mulheres num período de cinco anos (de 2006 a 2011), chegamos à conclusão de que o PBF está, de fato, abrindo possibilidades existenciais que podem ajudar os indivíduos a tornarem-se cada vez mais autônomos, embora, naturalmente, não haja nenhuma garantia de que isso vai acontecer. Contudo, nossas conclusões foram menos promissoras no que diz respeito ao desenvolvimento da consciência política.

DSC03147A maioria das mulheres expressou a opinião de que o PBF seria “um favor do governo” ou até “um presente de Lula”, enquanto somente cinco afirmaram que a bolsa era um direito delas. Quase todas disseram que votavam porque deviam (o voto é obrigatório no Brasil – ou voto mandatório), enquanto a ampla maioria manifestou uma opinião negativa sobre a política e os políticos, com exceção do presidente Lula (apesar de que algumas mulheres disseram não gostar dele). Por outro lado, elas geralmente reconheceram que, embora seu voto não mudasse nada no nível local, ao participarem das eleições presidenciais, elas poderiam influenciar a política do governo em relação aos pobres. Muitas expressaram o medo de que um presidente de outro partido suspendesse o programa e quase todas afirmaram que nenhum governo anterior teria levado a sério seu sofrimento.

O que nos consternou foi a falta quase absoluta de coordenação e ativismo político. Uma explicação poderia ser porque nosso foco foram os pobres de área rural, cujas condições diferem muito daquelas dos pobres de área urbana. A maioria das famílias que visitamos vivia em lugares isolados ou em pequenas cidades, longe da sede do município, e quase não tinha comunicação com outros participantes do PBF. Geralmente, não estavam organizados em comunidades locais, como tendem a sê-lo os moradores das favelas do Rio ou de São Paulo. Contudo, não faltavam interesse e vontade em participar de organizações políticas.

DSC01761Uma vez, na cidadezinha de Itinga, no Vale do Jequitinhonha, participamos de um encontro organizado pelo nosso contato local, após termos terminado nossas entrevistas, para que pudéssemos encontrar mais participantes do PBF – quase todos eram mulheres, mas estavam presentes também homens ou inteiras famílias. A maioria pensava que tivéssemos sido enviados pelo Governo Federal para ouvir suas reclamações. Explicamos que éramos simples cientistas sociais, mas, não obstante, seguiram relatando suas experiências pessoais daquilo que consideravam ser a injustiça e parcialidade do gestor do PBF local e do prefeito. Primeiramente, ouvimos uma ladainha de reclamações iradas e de amargas acusações recíprocas (“Por que você obteve a Bolsa e eu não, se você tem um trabalho e eu não?” “Você é amiga do prefeito, por isso, você a obteve logo e eu ainda estou aguardando”). Depois de um tempo, propusemos que juntassem suas reclamações contra o gestor do PBF e o prefeito e as submetessem às autoridades superiores. Algumas mulheres concordaram imediatamente e, improvisadamente, foram avançadas ideias sobre outras possíveis atividades políticas comuns. É verdade que algumas mulheres já tinham experiência em formas de auto-organização, uma vez que mantinham uma cooperativa que fabricava biscoitos de polvilho e os vendia a mercados de cidades vizinhas como Araçuaí. Contudo, agora estavam falando de política. Quando saímos da reunião, um grupo de indivíduos que até então estavam brigando entre si, tinha se tornado – pelo menos, naquele momento – um grupo politicamente ativo.

Essa história mostra como as coisas poderiam estar, se os participantes do PBF fossem reunidos para compartilhar suas experiências pessoais e para tomar iniciativas coletivas. Infelizmente, isso não acontece por várias razões. Em primeiro lugar, as autoridades políticas locais não têm interesse em mobilizar seus eleitores, que poderiam se organizar para pedir-lhes conta de sua má administração. Em segundo lugar, as próprias participantes não percebem a importância de organizar-se para ganhar força política e reclamar mais por seus direitos. Em terceiro lugar, ainda que tivessem essa consciência, lhes faltaria provavelmente a experiência para organizar-se de forma eficiente. Atores externos poderiam neutralizar estes três fatores, ao servir de catalisadores, como aconteceu, por acaso, conosco quando propusemos às mulheres de Itinga que juntassem suas reclamações. Ora, se isso seria desejável e se seria tarefa para ONGs, partidos políticos ou para o próprio Governo Federal são questões que, neste momento, devemos deixar em aberto.

Imagens gentilmente fornecidas pelo autor.

Sobre o Autor
Alessandro Pinzani é autor, com Walquiria Leão Rego, de Vozes do Bolsa Família (São Paulo, 2013) .


Os pontos de vista e as opiniões expressas neste post são de exclusiva responsabilidade do autor e não representam as do Blog Favelas@LSE nem da LSE.

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Posted In: Brazil | Development policies | In Translation | Social Mobilisation

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