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Blog Editor

February 3rd, 2014

África e Brasil: a estratégia africana do Brasil, tem por objetivo a busca de poder, lucro e o compartilhamento de conhecimento

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Sebastian Santander[1] da Universidade de Liège examina as razões que fazem da África um lugar de negócios tão atraente para as potências emergentes como o Brasil.

Para as potências emergentes, a África tornou-se um lugar importante para fazer negócios. O resultado: várias ligações com o continente, que vão da diplomacia e cooperação militar à economia, sem esquecer o comércio e a cooperação nos sectores do desenvolvimento e educação. Isto pode ser ilustrado pela intensificação da presença do Brasil na África. Após um período de estagnação nas décadas de 1980 e 1990, as relações bilaterais tomaram um novo rumo com o Governo Trabalhista de Lula da Silva (2003-2010) resultando numa segunda ‘Idade de Ouro’ das relações Afro-Brasileiras. Embora lhe falte o estilo extravagante e o carisma do seu antecessor, a Presidente Dilma Rousseff (2011-2014) investiu tanto como ele nas relações do país com a África.

brazilafrica

Desde que o Partido Trabalhista chegou ao poder, as autoridades brasileiras fizeram de África uma prioridade no seu mecanismo institucional. De fato, o Brasil criou um gabinete exclusivamente dedicado aos assuntos africanos no Ministério dos Negócios Estrangeiros e também aumentou os recursos e o pessoal destinado a ocupar-se das relações Afro-Brasileiras. Já houve dezenas de missões presidenciais e ministeriais para o continente, estas resultaram em mais de 160 acordos com países africanos em setores como a energia, comércio, agricultura, cooperação para o desenvolvimento, assim que os sectores militares e académicos. O número de embaixadas brasileiras na África duplicou desde 2003. Este interesse foi retribuído por mais de 15 embaixadas africanas em Brasília nos últimos anos. O Brasil também desenvolveu laços institucionais com a África através do Fórum IBSA, da cúpula América do Sul-África (ASA) mas também através do relançamento da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas) e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

A fim de estabelecer os interesses brasileiros no continente africano, as autoridades adoptaram uma estratégia de promoção do país: a apresentação do seu modelo de desenvolvimento como história de sucesso e base potencial de inspiração para outros países do Sul Global, particularmente em África. Este plano permite ao país de estender a sua influência no continente africano. O Brasil parece ser motivado pela ideia de que para se estabelecer como nação poderosa, tem de servir de modelo, recorrendo para isso ao uso de recursos intangíveis mobilizados como a ideologia ou a cultura. O continente africano parece ser terreno fértil para este plano, não apenas pelo Brasil ter o maior número de cidadãos de origem africana fora de África, mas também porque a cultura brasileira já beneficia de uma popularidade considerável devido ao interesse mundial cada vez maior pelo país, criado principalmente pela música, futebol e as telenovelas. A fim de desenvolver e consolidar este capital, Brasília lançou um canal público de televisão em Moçambique (TV Brasil Internacional) e estabeleceu a Universidade de Integração Afro-Brasileira de Língua Portuguesa (Unilab). Além disso, o Brasil consolidou a sua política de ajuda à África (cancelamento da dívida, concessão de novos empréstimos e programas de assistência técnica a determinados setores como a agricultura, a saúde e a energia).

Estas iniciativas estão a ajudar a criar uma imagem particular do Brasil no palco internacional, a saber a de um ator benevolente. Esta estratégia está longe de ser economicamente desinteressada. O Brasil considera a África como uma via de escoamento cada vez mais importante para os seus produtos de exportação e serviços; o setor empresarial também vê nela uma fonte de grandes oportunidades para os seus investimentos. O ativismo diplomático no qual o Brasil se engajou com a África nos últimos anos resultou num aumento exponencial das relações comerciais com a África [3]. Os investimentos brasileiros em África também cresceram. Há dois sectores em particular que chamaram a atenção das autoridades brasileiras: a agricultura e os biocombustíveis. Como grande potência agrícola e grande produtor e exportador de etanol do mundo, o Brasil crê possuir o saber-fazer para que a África consiga uma “revolução verde”  alcançando assim  o seu objetivo segurança alimentar e segurança energética. O Brasil está a oferecer cursos de formação aos países africanos (Angola, Gana e Nigéria) nos setores da agricultura e dos biocombustíveis. O país tem tudo a ganhar com a exportação do seu conhecimento nestes domínios porque a África oferece potencial para um crescimento considerável da exportação do etanol brasileiro.

O claro interesse na África também pode ser explicado pela ambição brasileira em ter um assente permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esta é uma das principais prioridades diplomáticas brasileiras por razões de prestígio e princípio. O Brasil conta, por isso, com o apoio da África. A África está-se a tornar um lugar capaz de multiplicar o poder do Brasil.

O interesse crescente demostrado pelo Brasil na África demostra-nos uma nova realidade africana e o novo desenvolvimento nas relações internacionais. O continente africano está a ser cortejado não só pelas potências  industrializadas  tradicionais mas também pelas potências emergentes. A chegada destas últimas em África e a sua franca expansão estão a contribuir para a mudança progressiva do poder mundial [4].

[1] Professor (Departamento de Ciências Políticas, Universidade de Liège, Bélgica).

[2] A primeira ‘Idade de Ouro’, das relações Afro-Brasileiras foi registada durante a década de 1970.

[3] O comércio aumentou de 3.5 bilhões em 2003 para 21 bilhões de euros em 2012: Neil Ford, “ O Brasil lançou-se na corrida africana”, African Business[i], 10 de dezembro 2012.

[4] Para uma análise mais aprofundada sobre a estratégia africana do Brasil veja: Sebastian Santander, ‘Brasil em Africa: Questões estratégicas’. African Geopolitics[ii], N 45, dezembro 2012, pp. 59-70.


[i] Revista de negócios

[ii] Revista que trata de assuntos relacionados com a África.

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Posted In: International Affairs

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