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Gabriela Lotta

Michelle Fernandez

Deisy Ventura

Danielle Hanna Rached

Melania Amorim

Lorena G. Barberia

Tatiane Moraes de Sousa

Clare Wenham

November 19th, 2020

Quem é responsável pela catástrofe brasileira na crise de COVID-19?

0 comments | 4 shares

Estimated reading time: 6 minutes

Gabriela Lotta

Michelle Fernandez

Deisy Ventura

Danielle Hanna Rached

Melania Amorim

Lorena G. Barberia

Tatiane Moraes de Sousa

Clare Wenham

November 19th, 2020

Quem é responsável pela catástrofe brasileira na crise de COVID-19?

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Apesar de ter um sistema de saúde relativamente bem colocado para combater a COVID-19, o Brasil tem hoje uma das maiores taxas de mortalidade do mundo. Frequentemente visto como um problema de coordenação entre os diferentes níveis de governo, o verdadeiro problema são as falhas do nível federal que se originaram em uma crise política pré-existente. Este tratamento catastrófico feito de cima para baixo da pandemia neutralizou os pontos fortes e, muitas vezes, os esforços heroicos do sistema nacional de saúde, escrevem Gabriela Lotta (FGV), Michelle Fernandez (Universidade de Brasília), Deisy Ventura (Universidade de São Paulo), Danielle Rached (FGV), Melania Amorim (Universidade Federal de Campina Grande), Lorena Barberia (Universidade de São Paulo), Tatiane Moraes (Fiocruz), Clare Wenham (LSE Health Policy).

• Also available in English

Oito meses após o início da pandemia, mais de 160.000 brasileiros morreram de COVID-19, o que representa a quarta maior taxa de mortalidade per capita do mundo (em 12 de novembro). Ainda hoje, não há sinais de que o governo esteja controlando o vírus. Como podemos explicar esta enorme tragédia humana e mudar seu curso?

The coffin of a Brazilian COVID victim is carried towards its final resting place by masked porters in a graveyard in Rio de Janeiro
“Mais de 160.000 brasileiros morreram de COVID-19, o que é a quarta maior taxa de mortalidade per capita do mundo” (Rio de Janeiro, Photocarioca/Shutterstock.com)

Brasil estava bem preparado para lidar com a COVID-19? 

É importante reconhecer que o Brasil estava relativamente bem preparado para enfrentar a pandemia quando ela chegou à América Latina.

Primeiro, o Brasil tem um forte sistema nacional de saúde (o Sistema Único de Saúde, ou SUS), que foi estabelecido no início dos anos 1990. Apesar do subfinanciamento crônico, o SUS conseguiu ampliar o acesso aos serviços de saúde, principalmente por meio da Estratégia Saúde da Família. Como a cobertura universal de saúde demonstrou ser um fator determinante na gestão da pandemia mundo afora, o Brasil estava bem posicionado para prevenir, detectar e responder à crise.

Em segundo lugar, o Brasil tem experiência recente no enfrentamento a epidemias, incluindo as de febre amarela e zika. Esses surtos evidenciaram os benefícios de um sistema de atenção primária no SUS que atinge o território brasileiro e cobre 74% da população, com equipes de saúde da família cuidando das condições de saúde no território e em nível local. A comunidade nacional e internacional apontava o trabalho dos 286.000 agentes comunitários de saúde (ACS) como elemento de potencial sucesso no enfrentamento à pandemia especialmente por causa das relações próximas e contínuas que os ACS possuem com as famílias. O SUS também tem um histórico forte e uma experiência significativa em vigilância epidemiológica, inclusive considerando o conjunto de dados disponíveis no sistema de saúde (DATASUS), que fornece informações ricas e relevantes sobre a saúde nacional e o acesso à saúde.

As raízes políticas para o fracasso na resposta ao COVID-19

Mas se o Brasil estava em uma posição relativamente forte, o que deu errado com a chegada do COVID-19? O problema não era o sistema de saúde, mas sim uma crise política pré-existente que foi exacerbada pela pandemia.

Se, em condições normais, espera-se que uma crise provoque uma união nacional, em vez disso, no caso brasileiro, vimos uma crescente polarização política (e epidemiológica). Por um lado, o governo federal adotou uma abordagem laissez-faire, com poucas intervenções em saúde pública, colocando o funcionamento da economia em primeiro lugar. Por outro lado, vários governos estaduais e municipais criaram ações de proteção a seus cidadãos adotando medidas sanitárias, mas que foram sinalizadas como oposição política pelo Governo Bolsonaro.

Mas, não se engane, não se trata apenas de uma ausência de ação coordenada para combater a pandemia: o governo federal agiu e tem agido deliberadamente para disseminar a doença. O presidente, em particular, tem incentivado as pessoas, especialmente as mais vulneráveis, a se exporem ao vírus.

“E daí?” perguntou Bolsonaro após 5.000 mortes. “Do que você tem medo? Temos que encarar isso aí!”, ordenou quando atingimos 91.000 mortes; afinal “todo mundo morre”. Com 100.000 mortes, ele disse apenas que “temos que continuar”. E dias atrás, com 162 mil brasileiros mortos, ele aproveitou uma cerimônia no palácio presidencial para alertar que “não podemos fugir disso, fugir da realidade; temos que deixar de ser um país de maricas”.

Contra todos os conselhos de profissionais e acadêmicos da saúde pública, ele tem incentivado aglomerações; interage com pessoas sem usar máscara; promove o uso de medicamentos não comprovados; e, mais recentemente, até começou a fazer discursos que desestimulam a participação dos cidadãos em campanhas futuras de vacinação. Essas posições populistas e anticientíficas dividem ainda mais a sociedade, produzindo um custo significativo para a sociedade.

A surfer walks out of the water on a Rio beach behind a mask-wearing statue of poet Carlos Drummond de Andrade
Presidente Bolsonaro politizou o uso de mascara e várias outras medidas de saúde pública (estátua de Carlos Drummond de Andrade, Renata Xavier/Shutterstock.com)

Priorização e negligência

Até julho, o governo federal havia investido apenas 30% dos recursos emergenciais disponíveis para a pandemia. Os créditos emergenciais também foram disponibilizados prioritariamente às grandes empresas, deixando as pequenas e médias empresas em segundo lugar. Já os recursos de renda emergencial chegaram tardiamente para parte da população mais vulnerável e sua continuidade é incerta.

Em termos de monitoramento e rastreamento de contatos de infectados, o Ministério da Saúde não conseguiu produzir indicadores sistemáticos que permitissem aos tomadores de decisão coordenar uma resposta mais eficaz. Os dados federais continuam sem coerência com outras fontes e muitos dados importantes nem mesmo são coletados. A vigilância epidemiológica também tem sido negligente. O governo federal optou por testes sorológicos “rápidos” em vez do RT-PCR, embora este último represente o meio mais eficaz de diagnóstico de COVID-19.

Em conjunto, estas ações do governo federal fizeram a resposta do Brasil à pandemia ser uma das piores do mundo.

A Organização Mundial da Saúde sugere que a taxa de resultados positivos da COVID-19 não deve ultrapassar 5% dos exames em um período de 14 dias, mas a taxa no Brasil foi de 33,2% em agosto, que é a segunda maior taxa de positividade do mundo. Isso mostra o erro na estratégia de testagem. O Brasil também tem a maior taxa de mortalidade entre enfermeiras infectadas pela COVID-19 e o maior número de mortes maternas relacionadas à COVID-19 no mundo, ambas decorrentes de graves falhas de atendimento. Essas mortes foram descritas por pesquisadores como um feminicídio liderado pelo Estado.

Nas áreas rurais, a prevalência de COVID-19 também está aumentando rapidamente, com uma taxa de mortalidade alarmante, levando ao colapso dos sistemas de saúde locais. Em 11 de novembro de 2020, 871 indígenas tinham morrido de COVID-19 e houve 38.978 casos confirmados desde o início da pandemia. Muitos acadêmicos também denominaram estas mortes como uma forma de genocídio.

De maneira geral, a tragédia brasileira é explicada principalmente pelos fracassos do Governo Federal, que neutralizaram os pontos fortes do SUS. Tão importante quanto a própria vacina, serão os esforços para imunizar o SUS contra o desmantelamento das políticas públicas promovidas por sucessivos governos, que acabaram prejudicando o povo brasileiro.

Embora tenhamos as piores expectativas em relação ao governo atual, temos orgulho do SUS, que ainda resiste e conseguiu evitar que essa catástrofe tirasse a vida de mais concidadãos.

 

Notas:
• As ideias expressas neste artigo são dos autores e não refletem a posição do Centro ou da LSE
• Por favor, leia nossas Políticas de Uso (EN) antes de fazer comentários

About the author

Profile photo of Gabriela Lotta

Gabriela Lotta

Dr Gabriela Lotta is Assistant Professor of Public Policy in the Department of Public Administration, Getulio Vargas Foundation. Her research focuses on policy implementation, notably the role of community health workers.

Michelle Fernandez

Dr Michelle Fernandez is Professor and Researcher of Political Science at the Political Science Institute, University of Brasília. Her research focuses on public policy, policy implementation, and policy evaluation, with an emphasis on health policies.

Deisy Ventura

Dr Deisy Ventura is a Professor in Global Health Ethics and Director of the PhD Program in Global Health and Sustainability at the Public Health School, University of Sao Paulo, Brazil. She focuses on the human rights situation during international health emergencies, amongst other critical studies in global health.

Danielle Hanna Rached

Dr Danielle Hanna Rached is an Assistant Professor at Getulio Vargas Foundation, Law School, Rio de Janeiro. Her research focuses on the legitimacy of international institutions.

Melania Amorim

Dr Melania Amorim is Professor of Gynaecology and Obstetrics in the Faculty of Medical Sciences, Federal University of Campina Grande. Her research focuses on humanisation of childbirth and birth. She is a consultant to the World Health Organization (WHO) and a defender of reproductive rights and female autonomy.

Lorena G. Barberia

Dr Lorena G. Barberia is Assistant Professor in the Department of Political Science at the Universidade de Sao Paulo. She is the scientific coordinator of the Solidarity Research Network Public Policy and Society, an inter-faculty initiative that seeks to improve the standard, calibrate the focus, and improve the quality of government actions during the COVID-19 crisis in Brazil.

Tatiane Moraes de Sousa

Dr Tatiane Moraes de Sousa is an Assistant Researcher in the Health Information Laboratory at the Oswaldo Cruz Foundation (Fiocruz). She has worked with projects related to the social and environmental determinants of health with a focus on the evaluation of health services and population health.

Profile photo of Clare Wenham

Clare Wenham

Dr Clare Wenham is Assistant Professor of Global Health Security in Department of Health Policy, LSE. Her research focuses on global health security, notably the political and policy implications of the recent outbreaks of Zika and Ebola.

Posted In: Bolsonaro's Brazil | COVID19 | Society

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