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Helen Yaffe

March 24th, 2020

Cuba e o coronavírus: a história dos avanços biotecnológicos que ajudam a combater o Covid-19

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Estimated reading time: 7 minutes

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Cuba e o coronavírus: a história dos avanços biotecnológicos que ajudam a combater o Covid-19

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A longa trajetória de Cuba na indústria de biotecnologia permitiu-lhe aproveitar a experiência internacional e produzir medicamentos para combater a dengue e a meningite. Um deles, o Interferon Alfa-2B, agora está sendo usado para combater os efeitos do Covid-19, escreve Helen Yaffe (University of Glasgow).

• Also available in English
• Disponible también en español

O Covid-19 surgiu na cidade chinesa de Wuhan no final de dezembro de 2019 e, em janeiro de 2020, já tinha atingido a província de Hubei como um maremoto, tomando conta da China e gerando ecos no exterior.

O Estado chinês entrou em ação para combater sua disseminação e cuidar dos infectados. Entre os 30 medicamentos escolhidos pela Comissão Nacional de Saúde da China para combater o vírus, estava um medicamento antiviral cubano chamado Interferon Alfa-2B, produzido na China pela joint venture cubano-chinesa ChangHeber desde 2003. 

Graduates from Cuba's University of Medical Sciences in the Plaza de la Revolución, Santa Clara
Formandos da Universidade de Ciências Médicas de Cuba na Praça da Revolução de Santa Clara (UCMVCCC BY-NC 2.0)

Interferon Alfa-2B e a bioteconologia cubana

Interferon Alfa-2B cubano provou ser eficaz para combater vírus com características semelhantes às do Covid-19. O especialista cubano em biotecnologia, Luis Herrera Martínez, explica que “seu uso evita agravamentos e complicações em pacientes, atingindo o estágio que pode resultar em morte”. 

Cuba começou a desenvolver e usar interferons para deter um surto mortal do vírus da dengue em 1981. Essa experiência catalisou o desenvolvimento da indústria biotecnológica da ilha, hoje entre os mais avançados do mundo. 

A primeira empresa de biotecnologia do mundo, a Genetech, foi fundada em São Francisco em 1976, seguida pela AMGen em Los Angeles em 1980. Um ano depois, a Frente Biológica, um fórum interdisciplinar profissional, foi criada para desenvolver a indústria em Cuba. 

Enquanto a maioria dos países em desenvolvimento tinha pouco acesso a novas tecnologias (DNA recombinante, terapia genética humana, biossegurança), a biotecnologia cubana se expandiu e assumiu um papel cada vez mais estratégico no setor de saúde pública e no plano nacional de desenvolvimento econômico. E isso apesar do bloqueio americano, que obstruiu o acesso a tecnologias, equipamentos, materiais, financiamentos e até troca de conhecimento. Impulsionada pela demanda da saúde pública, tem sido caracterizada por seu caminho acelerado da pesquisa e inovação até testes e aplicação, como mostra a história do interferon cubano.

A história internacional dos interferons cubanos 

Os interferons são proteínas de “sinalização” produzidas e liberadas pelas células em resposta a infecções, a fim de levar as células próximas a aumentar suas defesas antivirais. Eles foram identificados pela primeira vez em 1957 por Jean Lindenmann e Aleck Isaacs em Londres. Na década de 1960, Ion Gresser, pesquisador norte-americano baseado em Paris, mostrou que interferons estimulam linfócitos que atacam tumores em camundongos. Na década de 1970, o oncologista americano Randolph Clark Lee assumiu essa pesquisa. 

Os interferons liberados por uma célula infectada com um vírus levam as células vizinhas a ajudar a conter a infecção
Os interferons liberados por uma célula infectada com um vírus levam as células vizinhas a ajudar a conter a infecção (CNX OpenStaxCC BY 4.0, traduzido para o português)

Aproveitando as melhores relações do presidente americano John Carter com Cuba, Dr. Clark Lee visitou a ilha, se encontrou com Fidel Castro e o convenceu de que os Interferons poderiam se tornar a “droga maravilhosa”. Logo depois, um médico cubano e um hematologista passaram algum tempo no laboratório do Dr. Clark Lee, retornando com as pesquisas mais recentes sobre Interferon e mais contatos.

Em março de 1981, seis cubanos passaram 12 dias na Finlândia com o médico finlandês Kari Cantell, que na década de 1970 havia isolado interferon de células humanas e compartilhado o avanço ao recusar-se a patentear o procedimento. Os cubanos aprenderam a produzir grandes quantidades de interferons.

Apenas 45 dias após o retorno à ilha, eles produziram o primeiro lote cubano de interferon, cuja qualidade foi confirmada pelo laboratório de Cantell na Finlândia. Bem a tempo, ficou pronto.

A epidemia de dengue de Cuba em 1981 

Semanas depois, Cuba foi atingida por uma epidemia de dengue, uma doença transmitida por mosquitos. Foi a primeira vez que essa variação particularmente virulenta, que pode desencadear risco de vida através da febre hemorrágica da dengue, apareceu nas Américas. 

A epidemia afetou 340.000 cubanos, com 11.000 novos casos diagnosticados todos os dias durante o auge. 180 pessoas morreram, incluindo 101 crianças. Os cubanos suspeitavam que a CIA tivesse liberado o vírus. O Departamento de Estado dos EUA negou, mas uma investigação cubana recente alega ter evidências de que a epidemia foi introduzida pelos EUA. 

O Ministério da Saúde Pública de Cuba autorizou o uso de interferon cubano para deter o surto de dengue. A ação foi feita em grande velocidade, e a mortalidade diminuiu.

Em seu relato histórico, os cientistas médicos cubanos Caballero Torres e López Matilla escreveram:

Foi o maior caso de prevenção e terapia com interferon realizado no mundo. Cuba começou a realizar simpósios regulares, que rapidamente chamaram a atenção internacional.

O primeiro evento internacional em 1983 teve grande notoriedade; Cantell fez o discurso principal e Clark participou com Albert Bruce Sabin, o cientista polonês-americano que desenvolveu a vacina oral contra a poliomielite. 

Convencido da contribuição e importância estratégica da ciência médica inovadora, o governo cubano criou a Frente Biológica em 1981 para desenvolver o setor. Cientistas cubanos foram estudar no exterior, muitos em países ocidentais. A pesquisa deles adotou caminhos mais inovadores, já que eles fizeram experiências clonando o interferon.

No momento em que Cantell retornou a Cuba em 1986, os cubanos haviam desenvolvido o interferon humano recombinante Alfa-2B, que tem beneficiado milhares de cubanos desde então. Com investimentos estatais significativos, Cuba também abriu o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB) em 1986. Mas, naquele momento, Cuba estava submersa em outra crise de saúde, um surto grave de meningite B, embora isso também tenha servido para estimular o setor de biotecnologia do país.

O milagre cubano da meningite

Em 1976, Cuba foi atingida por surtos de meningite tipos B e C. Antes disso, apenas alguns casos isolados haviam sido vistos na ilha. Internacionalmente, existiam vacinas para meningite tipos A e C, mas não para o tipo B. 

As autoridades de saúde cubanas garantiram uma vacina de uma empresa farmacêutica francesa para imunizar a população contra a meningite tipo C. No entanto, nos anos seguintes, os casos do tipo B começaram a aumentar. Uma equipe de especialistas de diferentes centros de ciências médicas foi estabelecida, liderada por uma bioquímica feminina, Concepción Campa, para trabalhar intensamente na busca de uma vacina. 

Em 1984, a meningite B tornou-se o problema de saúde mais grave em Cuba. Após seis anos de intenso trabalho, a equipe de Campa produziu a primeira vacina de meningite B bem-sucedida do mundo em 1988. Membro da equipe de Campa, o Dr. Gustavo Sierra lembrou sua alegria: 

Foi o momento em que pudemos dizer que funciona, e funciona nas piores condições, sob a pressão de uma epidemia e entre as pessoas da idade mais vulnerável.

Entre 1989 e 1990, os três milhões de cubanos em maior risco foram vacinados. Posteriormente, 250.000 jovens foram vacinados com a vacina VA-MENGOC-BC, uma vacina combinada para meningite tipos B e C. A vacina registrou uma taxa de eficácia geral de 95%, com 97% na faixa etária de alto risco de três meses a seis anos. A vacina contra a meningite B de Cuba recebeu uma Medalha de Ouro da ONU por inovação global. Este foi o milagre da meningite de Cuba.

Recordando um gráfico da ascensão e queda súbita dos casos de meningite B em Cuba, o diretor do Centro de Imunologia Molecular (CIM) Agustín Lage me disse: “é possível trabalhar 30 anos, 14 horas por dia, apenas para apreciar esse gráfico por 10 minutos … A biotecnologia começou para isso. Mas, depois, se abriram as possibilidades de desenvolver uma indústria de exportação, e, hoje, as exportações cubanas de biotecnologia chegam a 50 países”.

Desde sua primeira aplicação no combate à dengue, o interferon de Cuba mostrou sua eficácia e segurança no tratamento de doenças virais, incluindo hepatite tipos B e C, herpes zoster, HIV-AIDS e dengue. Por interferir na multiplicação viral dentro das células, também tem sido utilizado no tratamento de diferentes tipos de carcinomas. Só o tempo dirá se o Interferon Alfa 2B se mostrará a “droga maravilhosa” no combate ao Covid-19.

 

Notas:
• As ideias expressas neste artigo são dos autores e não refletem a posição do Centro ou da LSE
• Este artigo é parcialmente baseado no capítulo 5 (“The curious case of Cuba’s biotech revolution”) do novo livro de Helen Yaffe: We Are Cuba! How a Revolutionary People Have survived in a Post-Soviet World (Yale University Press, 2020)

• Publicado anteriormente em inglês pelo blog da Yale University Press
• Tradução de Ana Paula Mansur
• Favor de leer nuestra política de comentarios (EN) antes de comentar

About the author

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Helen Yaffe

Helen Yaffe is a lecturer in economic and social history at the University of Glasgow, specialising in Cuban and Latin American development, and a visiting fellow of the LSE Latin America and Caribbean Centre. She is the author of Che Guevara: The Economics of Revolution and co-author with Gavin Brown of Youth Activism and Solidarity: the Non-Stop Picket against Apartheid. Her book We Are Cuba! How a Revolutionary People Have Survived in a Post-Soviet World was published in 2020 by Yale University Press.

Posted In: COVID19 | International

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